O empreendedor e o missionário

São Paulo, 5 de Dezembro de 2016

Recentemente tive a oportunidade de estar em uma troca de e-mails com um empreendedor cristão que trabalhou com Steve Jobs quando a Apple crescia muito mais do que o planejado. Havia uma preocupação muito grande de que os valores organizacionais da Apple fossem perdidos. Foi assim que Dave Evans, que ainda causa um grande impacto no Vale do Silício com seus projetos, sugeriu a criação de uma nova posição na Apple chamada ‘Business Evangelist’ (em Português poderíamos chamar de Evangelista Corporativo). O ‘Business Evangelist’ é a pessoa que garante que os valores da organização sejam mantidos durante um crescimento exponencial. Desde então, Microsoft, Oracle e outras grandes empresas começaram a adotar essa posição altamente estratégica que hoje é bem comum no mercado.

Empreendedores e missionários são dois tipos bem diferentes de pessoas, mas ambos me provocam um sentimento de profunda admiração. São definitivamente pessoas à serem estudadas, mas descrevo aqui algumas constatações iniciais de quem tem, pessoalmente, se jogado nesses dois mundos de forma simultânea já há algum tempo.

Um empreender acredita cegamente em uma ideia que nunca ninguém viu, nem ele mesmo. Um missionário também acredita cegamente quando possui um chamado direcionado de Deus. Ambos possuem enorme convicção de direcionamento e fé, pois acreditam em coisas que não veem.

Um empreendedor acredita tanto na sua ideia que é capaz de vender seu carro e usar todas suas reservas para iniciar o seu projeto. Um missionário, de forma similar, também deixa toda sua segurança financeira para trás. Ambos estão dispostos a correr riscos altíssimos.

Um missionário sabe que alguns mantenedores não serão fieis em enviar os recursos. Um empreendedor sabe que alguns clientes inadimplentes não enviarão os pagamentos. Ambos vivem sob constante pressão e sensação de futuro incerto.

Um missionário nunca vai ao campo sozinho, toda sua família e amigos são envolvidos no seu projeto. Um empreendedor também não consegue começar sozinho, tanto que existe um conceito chamado de FFFs (Family, Friends and Fools ou Família, Amigos e Tolos) pois são estes os primeiros investidores na vida de uma startup. Ambos dependem muito das pessoas mais próximas para alavancar os estágios iniciais das suas atividades.

Um empreendedor precisa ralar ao menos 3 anos para conseguir faturamento suficiente para pagar as contas e retornar dividendos ao investidor. Um missionário precisa as vezes de 24 meses ou mais para obter sustento suficiente para uma passagem só de ida e o suficiente para sobreviver minimamente em outro país. Ambos precisam ser mestres em se relacionar com pessoas, muitas vezes bem diferentes deles.

O curioso é que, mesmo com todas essas similaridades, empreendedores e missionários são de mundos muito diferentes e dificilmente conseguem manter mais de 30 minutos de conversa. Eles possuem ritmos, linguagem própria e motivações diferentes. Missionários e empreendedores, tão pertos e tão distantes.

Quer mais? Bem…Missão não é uma palavra estranha para ambos. No mundo empresarial, a missão de uma empresa significa a razão de existência daquela organização. Missão para o missionário significa o propósito da vida do missionário na missão de Deus – Missio Dei. A coincidência de vocabulários não para por aí. Aqueles que aportam o primeiro recurso financeiro em uma startup é chamado de investidor-anjo e mentores exercem a função de discipuladores, mas com foco no negócio, ao invés da vida espiritual.

Dessa forma, termino dizendo que um empreendedor só é empreendedor por acreditar que possui uma solução para o problema da vida de muitas pessoas. Um missionário só é missionário porque acredita que possui uma notícia tão boa que é suficiente para resolver um problema eterno da humanidade. Enquanto o produto que empreendedor criou resolve um problema da vida, a mensagem que o missionário carrega do Criador resolve um problema da alma. Agora, imagine só se tivéssemos empreendedores-missionários? Impactos agora e depois, riscos e oportunidades potencializados ao quadrado.

Em missão,

paulo