O desafio de um modelo de negócios sustentável para aceleradoras no Brasil

São Paulo/SP, 3 de Outubro de 2016

Por motivos claros e óbvios, tenho pesquisado bastante sobre aceleradoras de novos negócios no Brasil e no mundo. E então resolvi escrever um pouco sobre as principais conclusões até aqui, bem como recomendar as aceleradoras que são referências para nós da Bluefields Development.

As aceleradoras, como muito do que consumimos em desenvolvimento de novos negócios no Brasil, foram inspiradas em modelos importados dos EUA (vulgo ‘Gringolândia’). E a partir daí podemos fazer algumas importantes constatações:

Visão global de negócios: ao contrário da maioria dos brasileiros, os americanos possuem uma visão global de mercado. Ou seja, lá os empreendedores consideram que suas startups podem alcançar o mercado mundial, até mesmo com a facilidade do idioma pelo inglês ser a língua universal no mundo dos negócios. Não há dúvidas de que eles pensam grande e, logo, seus negócios podem ser mais atrativos do que startups brasileiras que se limitam geograficamente em encontrar soluções somente para o mercado doméstico;

Disponibilidade de capital: o que dizer do país mais rico do mundo? Não há dúvidas que existe mais capital disponível para investir em novos negócios nos EUA do que no Brasil;

Fatores econômicos: a taxa de juros dos EUA é menor que 1%, ou seja, aquilo que o americano deixa na poupança acaba rendendo juros muito baixos, além do acesso ao crédito ser muito menos custoso do que aqui. Os investidores brasileiros por sua vez, com uma taxa de juros (Selic) acima de 14%, facilmente encontram formas muito seguras de investir e com rendimentos agradáveis. Em resumo, devido aos aspectos econômicos, o brasileiro não é incentivado a investir em novos negócios. Só fazem mesmo aqueles que realmente gostam dessa aventura empreendedora. Por isso, acredito que investidores brasileiros são muito mais exigentes do que americanos ao avaliarem em qual negócio vão investir.

Ok, mas o que isso têm a ver com aceleradoras de novos negócios? Basicamente, tudo! O modelo de negócio de uma aceleradora é basicamente ter um ambiente de desenvolvimento de negócios onde as startups selecionadas possam expandir. Em troca, a aceleradora fica com um equity, ou seja, uma parcela da startup acelerada. Sendo assim, existem três formas da aceleradora retornar esse investimento:

  1. A startup é adquirida por alguma grande empresa;
  2. A startup abre o capital na bolsa de valores (IPO);
  3. A startup recebe uma segunda rodada de investimento.

Independentemente do que for, a aceleradora recebe seu percentual de equity em um desses momentos ao optar pelo exit. Em outras palavras, a aceleradora opta por vender sua parte e sair do negócio, o que pode demorar de 5 à 10 anos. Dessa forma, podemos concluir que o modelo de negócio de uma aceleradora é viável somente no longo prazo. E, considerando o paradoxo mercadológico acima, uma aceleradora brasileira necessita de consideravelmente mais tempo até atingir seu payback do que uma aceleradora americana. A não ser que a aceleradora brasileira tenha muita, mas muita sorte mesmo, nos seus primeiros negócios acelerados. Será que teremos com os nossos?

O mundo de startups no Brasil, apesar de avançar em passos largos, ainda está em formação e têm muito a ser desenvolvido. Isso faz com que as principais aceleradoras brasileiras sejam provenientes de grandes empresas (aceleradoras corporativas) com fôlego de caixa para financiar as operações das mesmas por um longo período de tempo, muitas vezes sem que o retorno econômico seja a maior prioridade. Por que elas fazem isso? Porque as aceleradoras corporativas desempenham um papel estratégico no diálogo de grandes empresas com o crescente mundo startup.

Criada em 2014, a ABRAII – Associação Brasileira de Empresas Aceleradoras de Inovação e Investimento – é formada por cerca de 15 aceleradoras entre as mais relevantes no país e em seu relatório anual mostra a urgente necessidade de colaborar com as aceleradoras para que sejam lucrativas e continuem gerando inovação, produtividade, riqueza e empregos para o Brasil. No website da Associação de Anjos do Brasil é possível encontrar aqui uma lista de dezenas de incubadoras e aceleradoras brasileiras, mas acredito que algumas das aceleradoras listadas já nem existem mais. Além disso, sabemos que até mesmo a maior aceleradora na América Latina conseguiu apenas 5 ou 6 exits até o momento.

Em outras palavras, meses atrás chegamos à conclusão que se empreender um novo negócio no Brasil já é altamente desafiador, empreender uma aceleradora de novos negócios no Brasil é ainda mais difícil. Portanto, temos inspirado o modelo de negócio da Bluefields Development tanto considerando o contexto brasileiro e a realidade das aceleradoras locais, como também em modelos de duas aceleradoras que são nossas maiores referências por compartilharem dos mesmos princípios e valores que queremos na Bluefields.

Segue abaixo os website para quem quiser saber mais dessas duas incríveis aceleradoras cristãs que tenho o prazer estar sendo mentoriado pelos seus fundadores à medida que desenvolvemos o nosso modelo de negócio.

Praxis Lab (Vale do Silício/EUA) – www.praxislab.org

Sinapis* (Nairobi/Quênia) – www.sinapis.org

*Foi aceleradora pela própria Praxis Lab na primeira turma em 2012
Golden Gate Bridge em São Francisco, durante visita ao Vale do Silício para reuniões com a Praxis Lab em Agosto/2016
Golden Gate Bridge em São Francisco, durante visita ao Vale do Silício para reuniões com a Praxis Lab em Agosto/2016

Agora a pergunta de um milhão de dólares é: qual a nossa solução para o modelo de negócios da Bluefields? Bom, nós cremos e estamos convictos de que vamos conseguir! Esse é um tema para futuros artigos e quem sabe Deus não escuta as orações de empreendedores por políticas públicas favoráveis ao empreendedorismo no Brasil. Por agora, estamos fazendo avanços consideráveis nesse sentido e espero compartilhar as possíveis conquistas em breve 🙂

Em missão,

paulo